QUENTAL, UM POETA GENIAL!Taí um poeta que sempre admirei, um dos grandes poetas portugueses, que sem dúvida ainda amamentam a espinha cultural desta alma de língua portuguesa, Antero Tarqüínio de Quental. Revolucionário, polêmico, político, boêmio, declamador e culto; este Antero fez liderança entre os jovens de seu período estudantil, exalava o espírito do século (segunda metade do séc. XIX) afrontou e chocou a sociedade cultural portuguesa reinante, chegou a montar sua própria sociedade secreta (Sociedade do Raio), com ritos misteriosos, o que nos lembra à nossa velha conhecida e descrita no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Escreveu “Odes Modernas” aos 20 anos e publicou-o um ano depois, em 1865, causando entusiasmo e perplexidade. Mas a sua primeira grande polêmica foi a chamada “Questão Coimbra” que se deu a seguir, quando o acadêmico e laureado poeta cego Antônio Feliciano de Castilho, seu antigo mestre que já o havia considerado Antero de talentoso e genial, ataca ferozmente a sua poesia, juntamente com a poesia dos também jovens Teófilo Braga e Vieira de Castro, acusando-os de antipoéticos e obscuros e ainda afirmando que tinham fastio de morte à verdade e à simplicidade. A resposta de Quental veio à altura, nos textos “Bom senso e Bom gosto” e “A dignidade das letras e a literaturas oficiais” que, engolidas a seco pelo velho bardo, alimentaram às mesas das discussões poéticas em Portugal por longo e bom tempo. Formado, o poeta hesitou em descobrir o que fazer, pensou em unir-se ao grupo de Garibaldi que lutava para unificação da Itália. Tentou viver na França e nos Estados Unidos, sem muita convicção, e acabou por retornar à Portugal e se estabelecendo em torno do grupo cultural, boêmio e político denominado “Cenáculo”, do qual também participaram Eça de Queiroz e Guilherme Azevedo, entre outros. Tem aí uma participação política e intensa, envolve-se com a filosofia e começa a sentir os primeiros sintomas de sua doença misteriosa (similar à depressão), o que o faria buscar cura em vários lugares, inclusive em Paris, com o famoso Dr. Charcot, um dos gurus do jovem Freud.
Em 1881 o poeta adota 2 órfãs e isola-se em Vila do Conde, influenciado pelo estoicismo e pelo budismo. Em 1890 Antero decide voltar às atividades políticas, aceitando a presidência da “Liga Patriótica do Norte”, com sede em Porto, o que lhe daria uma grande decepção já que a liga rompeu-se a seguir devido às incompatibilidades e cisões internas do próprio grupo. Retorna à São Miguel e entre em conflito com sua própria família, que não aceita suas filhas adotivas, e agrava-lhe a doença. Durante uma crise, em 11 de setembro de 1891, suicida-se junto ao muro do convento Esperança.Os primeiros escritos de Quental eram da época romântica, mas combatiam justamente o romantismo, talvez exatamente isto tenha contribuído para que seus poemas de juventude fossem mal recebidos pelos literatos oficiais de então. Antero era leitor de autores revolucionários como Poe, Baudelaire, Proudhon; tinha vindo de uma família de padres e poetas boêmios (seu avo fora amigo de Bocage); era também um adepto do socialismo nascente e um leitor apaixonado de filosofia que tinha uma inteligência incomum. Considerado um dos grandes sonetistas da literatura portuguesa ao lado de Camões e Bocage, seu sonetos me fazem lembrar os nossos grandes Raul de Leoni e Mário Faustino. Magnífico. Há uma briga constante entre o bem e o mal em seus textos, quase que uma tentativa (vã?) de construir o deus dentro do homem! Há também um fascínio intenso sobre a arte de pensar, penso quase que divinava isso.
*****************************************************************************
DOIS SONETOS
DIVINA COMÉDIA
Erguendo os braços para o Céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: - «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,
Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
Num turbilhão cruel e delirante...
Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: - «Homens! porque é que nos criastes?!»
******************************************
TORMENTO DO IDEAL
Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o Mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do Sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o batismo dos poetas,
E, assentado entre as formas incompletas,
Para sempre fiquei pálido e triste.
Antero de Quental In: Antologia - Ed. Nova Fronteira.

4 Comments:
Oi, vim aqui e tive uma pequena aula sobre Quental, o qual , confesso, conheço bem pouco. Um beijo pra vc. valeu!
uma dúvida: um amigo tem um blogger como o seu, mas de acordo com a configuração que ele deixou, só quem tb tem blogger pode deixar comentários. como se faz para mudar isso. Pode me explicar para eu explicar pra ele?? rsss bj
can we reach you directly? I am studying Quintal in Santa Fe, NM and I don't speak Portuguese.
How's your English?
Thank you for writing about him
Hi Alicia!
I could not find you because you didn´t give me your email address, but you can email me on altairolivei@gmail.com, dear.
Look, I am just a poet who loves the Quental works, I am not a teacher. Anyway, I like to discuss poetry...hê!
It would be a plaisure if I be able to help you!
See you soon. Take care!
Altair de Oliveira
Ei cara pálida, abandonou o blog, abastece ele aí bicho, estou ansioso para ler novas poesias ou estórias ou comentários, não desista não
Hugo
Post a Comment
<< Home